segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Fará sentido a aplicação do modelo de Gagne?

Dei os primeiros passos como formador à mais de 5 anos nesta instituição sendo, na altura, um autêntico “tabu” para mim, as técnicas a aplicar na formação bem como o modelo de Gagne. Com o passar do tempo, adquiri experiência e conhecimentos técnicos que enriquecerem o modo como transmito a matéria aos instruendos. Após ter efectuado o CFPF tive os primeiros contactos com o modelo de Gagne, e tal como aconteceu com outros camaradas, aplicávamos o modelo de Gagne, inconscientemente, mas nem sempre na sua totalidade.

Em cada aula que dou é necessário chamar a atenção dos formandos, para os motivar a interiorizarem a matéria uma vez que será de extrema importância para atingir os objectivos da mesma. Sou apologista de uma motivação positiva, por exemplo: numa aula em que o tema seja a poluição não coloco imagens negativas como uma lixeira mas sim um ambiente limpo e livre de poluição!

Como temos que cumprir rigorosamente o PDINST, foco os alunos para o objectivo da aula, a matéria é repartida por sessões/aulas, por isso, digo que o objectivo desta aula é única e exclusivamente o assunto “xpto” assim eles sabem que no fim da aula têm que saber definir/explicar o assunto abordado. A maioria das minhas aulas são práticas, portanto, se concluíram o exercício dentro da hora, verifico que conseguiram alcançar o objectivo da mesma.

É sem dúvida importante recordar a matéria da aula anterior porque a maior parte da matéria é extensa, com muita informação e tem um seguimento e essa ligação é importante também para saber se ainda reside alguma dúvida ou se tenho que avivar a memória dos “mais esquecidos” Uso muitas vezes: “Vocês recordam-se como se fazia esta aplicação...”

Fazendo a ligação à aula anterior, estão criadas as condições para nova matéria, os instruendos estando já despertos e motivados para continuar com a matéria torna o funcionamento da aula mais agradável e participativo! No desenrolar da aula não torno a mesma em monólogo, é importante fazer perguntas, exercícios/actividades, ir ao encontro das dificuldades dos instruendos e estabelecer “pontes” de comunicação como refere o modelo de Gagne.

Como já referi, a grande maioria das aulas que lecciono são práticas. Facilita a interiorização da matéria e permite verificar qual o nível da turma em geral bem como a performance de cada instruendo. Quem tem mais dificuldades recebe naturalmente mais atenção da minha parte para que possa acompanhar o resto da turma sem atrasar a mesma.

Um dos pontos mais importantes, na minha opinião, do modelo de Gagne é o feedback. Um simples “muito bem”, “correcto”, “é assim mesmo que pretendo” é suficiente para motivar o instruendo e para que saiba que está no bom caminho. Desperta também a turma numa competição saudável para que todos possam receber um feedback positivo. Muito importante! (Eu como aluno sempre gostei de receber um elogio ou uma atenção positiva do meu formador).
Antes de cada avaliação, procedo a revisões mesmo que a turma tenha mostrado que compreendeu toda a matéria, mas nem tudo o que parece é! Por isso, deixo sempre umas aulas para ter a certeza que os instruendos estão sem dúvidas e preparados para serem avaliados.

Na minha opinião, é sem dúvida uma mais-valia aplicar o modelo de Gagne na formação dos militares. Admito que nem sempre é fácil mas acabamos por automatizar este modelo inconscientemente, é natural que seja necessário limar umas arestas e adaptar a cada formação. Cada caso é um caso!

Uma acção de formação em que gostei particularmente de tomar parte

Durante a minha carreira militar tive diversas acções de formação onde desenvolvi os meus conhecimentos técnicos, culturais e humanos. Das várias acções de formação em que tomei parte vou destacar, talvez por ter sido a mais recente e também por ser um objectivo meu desde que entrei para esta instituição, o Curso de Formação de Formadores de Instrução Básica (CFFIB).

Esta acção de formação, também conhecida por “Escola de Quadros”, visa preparar os futuros formadores da Instrução Básica. É sem dúvida uma formação de elevado rigor e importância uma vez que somos o primeiro contacto dos mancebos com a vida militar e, neste caso, com a Força Aérea.

A Escola de Quadros é basicamente uma simulação da recruta, ou seja, voltamos a recordar todos esses momentos mas agora com uma perspectiva bem diferente. Foi o reviver de uma altura que me marcou muito! Certamente que terão a mesma opinião! A camaradagem, o primeiro contacto com a vida militar, o rigor e o orgulho em ser militar, enfim uma série de acontecimentos únicos!

Durante duas semanas fomos levados ao limite tanto a nível físico como a nível psicológico. O dia começava bem cedo com horas “intermináveis” de preparação física! Tínhamos formaturas rigorosas. Má uniformização, botas por engraxar ou barba por desfazer era motivo para executar “benefícios físicos”. A deslocação era sempre efectuada em pelotão! Recordámos a execução correcta de vários movimentos de Ordem Unida, a montagem e desmontagem das armas não foram deixadas de parte, o tiro de manutenção (continuo a não saber se o defeito é meu ou da arma, eh eh). Onde me senti mais à vontade, foi com a simulação das aulas, onde vamos ministrar várias matérias aos mancebos, certamente devido à experiência que adquiri na função que desempenho hoje como formador.

Destaco nesta formação a prova de orientação. A dedicação da nossa parte era de tal maneira elevada que até a camuflagem das partes visíveis do corpo não ficou de parte. O caminho a percorrer estava traçado e a luta constante com o cansaço e a entreajuda foram marcantes. A força de vontade e motivação foram fundamentais!

Não posso deixar de salientar que ao fim de duas semanas de preparação intensa, que me marcou muito pela positiva, cresci como pessoa e como militar mas devido à falta de candidatos e um elevado número de formadores (CFFIB) não fui seleccionado para fazer parte do grupo que iria receber os mancebos para a Instrução Básica. Fiquei triste por ter cumprido só uma parte de um objectivo pessoal mas conformado!

A integração dos Cursos de Especialização Tecnológica na Força Aérea Portuguesa

Após diversa leitura sobre a integração dos Cursos de Especialização Tecnológica na Força Aérea, contactos efectuados com a Direcção de Instrução, o conhecimento das leis reguladoras (Decreto-Lei nº 88/2006 e Decreto-Lei regulador dos CET) deixo aqui a minha retrospectiva sobre o assunto!

A legislação referente aos CET, os requisitos internacionais e nacionais para a manutenção aeronáutica bem como o sucessivo aumento do nível de escolaridade obrigatória ao longo dos anos, colocaram novos desafios ao sistema de formação profissional da Força Aérea. Tais razões conduziram à necessidade de definir novas caracterizações funcionais, perfis profissionais e perfis de formação que se traduziram em novos currículos.

A especificidade do campo de actuação da Força Aérea, obriga a que a formação profissional dos militares obedeça a um conjunto de requisitos sem os quais não seria possível manter as capacidades e a prontidão necessárias ao adequado desempenho, nos cenários de emprego perspectivados. Para além dos requisitos inerentes ao desempenho das funções militares existe um conjunto, de outros exigidos pelas entidades certificadoras civis, sem os quais não é possível certificar a aptidão dos militares para a vida civil.

Desta forma, a Força Aérea adequou o seu modelo de formação e, sem descurar a preparação para a missão, foram introduzidos módulos que desenvolvem as competências valorizantes e passíveis de reconhecimento pelas entidades certificadoras das diferentes áreas, tendo em vista a reinserção, na vida civil, dos militares que não optarem pela integração nos Quadros Permanentes da Força Aérea.

Neste sentido, a Direcção de Instrução, definiu perfis de competências de acordo com os perfis profissionais aprovados no âmbito do Sistema Nacional de Certificação Profissional, assim como referenciais de formação em conformidade com as normas de certificação específicas para cada actividade.

No caso dos praças, estes obtêm uma formação assente em critérios de qualidade, preparação para responder aos requisitos da missão e ainda os saberes necessários para o (re)ingresso no mercado de trabalho civil, fazendo valer as competências reconhecidas pela entidade certificadora da sua área profissional.

Outro dos objectivos da Força Aérea, no domínio da educação, é incentivar os praças em RC à conclusão do ensino secundário, através da inscrição nas escolas da área geográfica das unidades ou, em noutras instituições que confiram valências para garantir certificações profissionais de Nível 3.

Esta medida irá, num futuro de curto prazo (próximo ano lectivo), extinguir a versão mais prolongada do Curso de Formação de Sargentos do Quadro Permanente (3 anos), que confere certificação escolar de nível secundário, e fazer evoluir o referido curso para uma Especialização Tecnológica Nível 4. Nesta perspectiva, a redução do tempo de formação será acompanhado de uma valorização técnica correspondente a um ano de especialização na respectiva área de actividade.

O modelo de formação adoptado pela Força Aérea melhora significativamente o enriquecimento dos seus recursos humanos a nível técnico – profissional e eleva o desempenho individual para o cumprimento da missão. Este modelo potencia o desenvolvimento da formação, nos diversos domínios de intervenção, ao longo da permanência dos militares nas fileiras, através de percursos formativos bem definidos e controlados.

A actual formação dos militares proporciona a preparação e os conhecimentos de natureza militar e aeronáutica, bem como desenvolve competências, capacidades e comportamentos específicos dirigidos ao saber-fazer, conferindo aos formandos as valências necessárias ao seu desempenho.

Após a formação inicial, o percurso continua nas unidades de colocação dos jovens militares através de um período de Formação em Contexto de Trabalho (FCT) ou Formação Modular complementar. É nas unidades que os recém formados vão aplicar na prática os saberes adquiridos, sob a orientação de um tutor que os enquadra na utilização das técnicas, materiais e equipamentos para os quais a sua formação foi dirigida.

Durante a FCT, as actividades desenvolvidas são realizadas em ambiente de trabalho real, adequado ao perfil profissional em causa, sendo que esta formação é posteriormente complementada por vertentes dirigidas ao desenvolvimento profissional e pessoal, à educação militar profissional, às qualificações operacionais e, em particular, à certificação da aptidão profissional, através de um mecanismo de formação modular enquadrada em percursos de qualificação profissional de Nível 3.

Actualmente encontram-se homologados, pelas entidades civis competentes, alguns dos cursos ministrados pela Força Aérea, como por exemplo: os cursos de Formação Pedagógica de Formadores, de Qualificação de Condutor de Transporte de Mercadorias Perigosas, de Técnico de Secretariado, de Técnico de Electrónica de Telecomunicações, de Bombeiro e de Empregado de Mesa e Bar.

A implementação dos CET’s tem passado por um processo comunicacional, a cargo da Direcção de Instrução da Força Aérea, divulgando nas diferentes unidades/órgãos o modelo adoptado, as novas competências, as metodologias e o processo de formação em contexto de trabalho.

Optar por um modelo de formação, como o descrito anteriormente, significa, por um lado, basear a formação em referenciais vigentes no mercado de trabalho, alicerçados em comprovados critérios de qualidade e, por outro lado, desenvolver competências adequadas para que os militares sirvam o país na Força Aérea e, mais tarde, na sociedade civil quando terminarem o seu contrato.

Esta dupla valência vai ao encontro dos requisitos legais, que, como verificado anteriormente, privilegiam uma formação militar que proporcione ao indivíduo uma formação reconhecida e certificada. Vem ainda desenvolver uma formação mais específica, referenciada e de qualidade com benefícios para a Instituição e para o individuo no regresso à vida civil.

A Força Aérea obtém ainda vantagens ao valorizar os conhecimentos e o futuro de seus militares. É este reconhecimento que motiva e predispõe para a qualidade do trabalho, para o brio profissional, para o empenho e para o querer fazer melhor, com benefícios directos ao nível do recrutamento.

Em suma, o trabalho desenvolvido no âmbito da formação dos militares em RC da Força Aérea, traduzido na implementação dos CET’s, vem apresentar respostas concretas a exigências de ordem legal e ainda contribuir para a formação dos militares em regime de contrato. Este trabalho traduz benefícios para o País, colaborando na educação-formação e elevação das competências da população. Esta estratégia de formação centrada na elevação das competências individuais, visa formar indivíduos militarmente aptos e tecnicamente competentes, conferindo-lhes as certificações profissionais, nos casos onde tal já é possível, procurando-se nos restantes casos saídas profissionais reconhecidas pelo mercado de trabalho, sendo esta a via escolhida para garantir a qualidade da formação dos seus técnicos.